Medir o OEE não é para ferramentaria !

Por Que a Disponibilidade de Máquina é Mais Estratégica que o OEE na Ferramentaria?

Quando gestores de ferramentaria buscam otimizar a fábrica, a primeira métrica que costuma vir à mente é o OEE (Overall Equipment Effectiveness), ou Eficiência Global do Equipamento. É o “padrão ouro” da manufatura mundial. No entanto, tentar aplicar o OEE em um ambiente de ferramentaria (fabricação de moldes, matrizes e dispositivos especiais) frequentemente resulta em frustração, dados irreais e atrito entre os departamentos.

Para entender por que isso acontece, precisamos analisar a natureza de uma ferramentaria e como ela difere drasticamente de uma linha de produção seriada. O segredo para o sucesso em um ambiente de alta mistura e baixo volume não está na complexidade da fórmula do OEE, mas sim em um de seus três pilares fundamentais: a Disponibilidade de Máquina.

O Paradoxo do OEE em Ambientes Não-Seriados

O cálculo do OEE depende de três fatores: Disponibilidade, Performance (Desempenho) e Qualidade. Em uma linha de peças automotiva, onde uma máquina CNC usina o mesmo item milhares de vezes, o OEE funciona perfeitamente. Você sabe exatamente qual é o tempo de ciclo ideal (Performance), sabe se a peça foi aprovada ou refutada imediatamente após o processo (Qualidade) e monitora as paradas (Disponibilidade).

Mas o que acontece na ferramentaria?

Na usinagem de moldes, cada peça é única ou produzida em lotes minúsculos. O componente que está na máquina hoje nunca mais será usinado novamente. Isso destrói os pilares de Performance e Qualidade no momento da coleta de dados, por dois motivos cruciais:

  1. A Ilusão da Performance: Para medir o desempenho, você precisa de um tempo de ciclo ideal. Na ferramentaria, o tempo “ideal” é apenas uma estimativa gerada pelo software CAM (Computer-Aided Manufacturing). Quando o operador está usinando uma cavidade de molde complexa e a ferramenta começa a vibrar, ele reduz o avanço (feed rate) para proteger a peça que já custa milhares de reais em material e horas agregadas. O tempo real será maior que o tempo do CAM. Isso significa que a performance foi ruim? Não, significa que a estimativa teórica do escritório não refletiu a realidade física do corte. Medir a performance com base em estimativas não validadas gera um indicador de OEE completamente distorcido.
  2. O Controle da Qualidade: Na ferramentaria, não existe “refugo” da mesma forma que na produção em massa. Se uma dimensão não ficou boa, a peça não é descartada; ela passa por um retrabalho longo e artesanal (como polimento ou solda). Além disso, a qualidade muitas vezes só é atestada semanas depois, quando o ferramental inteiro é montado no try-out (teste final). Registrar a qualidade em tempo real no pé da máquina CNC é quase impossível e estatisticamente irrelevante para a métrica diária.

Por Que Focar Apenas na Disponibilidade?

Se a Performance é incalculável e a Qualidade é medida muito tempo depois da usinagem, o que sobra? A Disponibilidade.

Em uma ferramentaria, o equipamento CNC é o centro do faturamento. O fuso (spindle) girando e cortando cavaco é a única atividade que agrega valor real ao produto. Todo o resto — buscar ferramentas de corte, ajustar a fixação, ler desenhos, carregar programas via pendrive, limpar a mesa, esperar o inspetor da qualidade — é desperdício de tempo operacional.

Portanto, o foco da gestão em manufatura avançada para a fabricação de moldes deve ser implacável em responder a uma única pergunta: “Por que minha máquina está parada?”

Monitorar a disponibilidade fornece um diagnóstico imediato e acionável. Você descobre se o maior gargalo está na preparação do setup, na falta de matéria-prima, na ausência do operador ou na quebra da máquina. Ao invés de debater se a meta do CAM estava certa, a equipe foca em processos logísticos para manter o fuso rodando o máximo de horas possíveis por dia.

Como Calcular a Disponibilidade de Máquina

O cálculo da Disponibilidade isolada é direto, transparente e não depende de estimativas teóricas de engenharia. Ele foca estritamente na relação entre o tempo em que a máquina deveria estar produzindo e o tempo em que ela de fato esteve agregando valor.

A fórmula fundamental é:

Disponibilidade % = (Tempo Operacional Real / Tempo de Produção Planejado) x100

Passo a Passo do Cálculo

  1. Defina o Tempo Total do Turno: Quantas horas o turno tem? Exemplo: Um turno de 8 horas (480 minutos).
  2. Subtraia as Paradas Planejadas (Não-Programadas): Nem todo o tempo de turno é tempo de produção planejado. Horários de almoço, reuniões gerais ou manutenções preventivas programadas devem ser descontados. Se o almoço é de 30 minutos e o setup da máquina para o próximo lote já estava no cronograma de limpeza preventiva por 20 minutos, subtraímos 50 minutos.
  • Tempo de Produção Planejado: 480 – 50 = 430 minutos.
  1. Identifique o Tempo de Parada Não Planejada: Aqui entram as perdas. A máquina ficou parada 40 minutos aguardando o programa chegar da engenharia? Quebrou uma fresa e o operador gastou 20 minutos para encontrar uma nova no almoxarifado? Tivemos 60 minutos de paradas não planejadas.
  2. Calcule o Tempo Operacional Real: Subtraia as paradas não planejadas do tempo planejado.
  • Tempo Operacional Real: 430 – 60 = 370 minutos.
  1. Aplique na Fórmula:
  • Disponibilidade % = (370 / 430) x100 = 86 %

Neste cenário, a sua máquina CNC esteve disponível e efetivamente cortando material durante 86% do tempo em que ela deveria estar trabalhando. Para uma ferramentaria, aumentar esse número de 60% (a média comum da indústria) para 85% representa um aumento monumental no lucro, sem precisar comprar uma máquina nova.

Comando CNC

O Papel do Sistema MES e DNC no Chão de Fábrica

É impossível melhorar o que não se pode medir, e tentar medir a disponibilidade usando apontamentos em papel e prancheta é o caminho mais rápido para dados maquiados ou atrasados. É aqui que entra o poder da digitalização industrial e a integração TI/TA (Tecnologia da Informação e Tecnologia de Automação).

Para garantir que o cálculo da disponibilidade seja exato e que as máquinas não fiquem paradas por falhas de comunicação, dois sistemas são pilares na Indústria 4.0: o MES (Manufacturing Execution System) e o DNC (Direct Numerical Control).

Sistema DNC: Eliminando Paradas por Fluxo de Dados

O tempo que um operador gasta caminhando pela fábrica com um pendrive (USB) para transferir um programa G-code do computador do programador até o painel da máquina CNC é tempo de máquina parada (Setup de Programa). Além do desperdício de tempo, há o risco de inserir a versão errada do código.

O software DNC conecta fisicamente ou via rede Wi-Fi o servidor da engenharia diretamente aos comandos da máquina. Com isso, os programas chegam em segundos, organizados por pasta e com controle de versão rigoroso. Máquinas mais antigas ganham conectividade moderna, e as mais novas trabalham no limite da sua capacidade. Com o DNC, o tempo de inatividade causado pela gestão de arquivos cai para zero, impactando diretamente e positivamente no cálculo de disponibilidade.

Sistema MES: O Raio-X em Tempo Real

Enquanto o DNC leva a informação até a máquina, o sistema MES coleta os dados do que está acontecendo nela. O MES atua como o cérebro do chão de fábrica digital. Ele se comunica diretamente com o CLP ou o comando CNC do equipamento, sabendo exatamente em que segundo o fuso começou a girar e em que segundo ele parou.

Se a máquina para e permanece inativa por mais de 3 minutos, o MES pode bloquear o painel até que o operador selecione o motivo da parada em um tablet industrial ou interface. Os dados coletados criam um gráfico de Pareto instantâneo dos maiores ofensores da produtividade. Ao invés de o gerente de produção no fim do mês perguntar por que o projeto atrasou, o sistema MES alerta em tempo real: “A máquina 3 está parada há 45 minutos aguardando ferramenta especial”.

O MES transforma o monitoramento em tempo real em uma ferramenta gerencial preditiva, focando exatamente onde dói na ferramentaria: as causas ocultas da inatividade.

MES trás transparência nos dados da ferramentaria. Fonte: Witthaya Prasongsin / Getty Images

A Transição para a Manufatura Avançada

A busca incessante por tentar enquadrar o OEE dentro de um ambiente criativo e mutável como a usinagem de moldes e matrizes, é um desperdício de energia. Ao simplificar o olhar gerencial e mirar com precisão na Disponibilidade, a ferramentaria ganha agilidade. Quando combinada com tecnologias de fluxo de dados, a empresa sai da era do “eu acho que a máquina está rodando” para a certeza da produtividade real.

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